Resenha: Eu Perdi O Rumo - Gayle Forman

8.11.18


"Está tudo bem, não está? (...) Mais tarde, Nathaniel se deu conta de que não era exatamente uma pergunta. As pessoas queriam se tranquilizar, se livrar da situação difícil. Então, por mais que nada estivesse bem, nada certo, por mais que ele fosse um sapo fervendo numa panela, por mais que estivesse sendo tragado pelo chão sob seus pés, ele respondia: "Está tudo bem."
Uma mentira deslavada. Quando é que está tudo bem?"

 Ler livros da Gayle Forman é a maneira mais acessível de fazer terapia nos dias atuais. Desde seu romance de estreia, até suas outras obras mais adultas, cada texto dessa autora apresenta uma questão moral e filosófica para reflexão do leitor no decorrer de suas páginas.
 E "Eu Perdi O Rumo" segue essa mesma característica marcante da autora. Com três personagens completamente distintos Gayle Forman nos apresenta a estória de Freya, a garota que perdeu sua voz, Harun, o rapaz que  perdeu seu amor e Nathaniel, o menino que perdeu sua definição de família.
 Encontrando-se por acaso em um acidente protagonizado nas ruas de Nova York, o destino desses três adolescentes se intercalam e juntos eles passam o período de um dia tentando ajudar uns aos outros a superarem suas próprias perdas.
 Diferente e talvez até semelhante em alguns aspectos a outras obras adolescentes que retratam apenas um dia na vida de seus personagens, Gayle Forman possui experiência com esse tipo de narrativa. Afinal, ela não dispõe de um antigo romance intitulado "Apenas Um Dia" a toa.
 Entretanto, nos dias atuais, "Eu Perdi O Rumo" assemelha-se bastante com "O Sol Também É Uma Estrela" de Nicola Yoon, principalmente ao retratar aqueles amores duradouros de vinte e quatro horas que parecem arrebatar os corações de Nathaniel e Freya ao se encontrarem.
 Mas - felizmente - a autora consegue se diferenciar do problemático enredo criado por Nicola Yoon ao não focar-se única e exclusivamente nas questões amorosas da obra elevando-a para um nível menos jovem do que outros livros de temática similar no mercado.
 Ao intercalar a narrativa com as principais perdas de cada personagem, Forman é capaz de criar uma identidade única para seus protagonistas, além de fazer o leitor compreender quais eram os dilemas que eles estavam sofrendo naquele dia em particular.
 Com personagens principais opostos, a autora também consegue explorar toda a questão de diversidade cultural de maneira natural - como ela realmente deve ser tratada - ao invés de transformar sua narrativa em algo característico e até mesmo didático.
 A cada novo capítulo e nova informação descoberta sobre Freya, Harun e Nathaniel o leitor envolve-se em seus problemas e passa a identificar-se com seus sentimentos de uma maneira generalizada. 
 Oposto ao que sempre ocorreu comigo ao ler outras obras dessa autora, não me reconheci em nenhum de seus protagonistas - algo que quase me levou as lágrimas ao ler "Eu Estava Aqui", anos atrás - mas os pensamentos e questionamentos de todos os personagens desse trio criam uma imediata empatia com o leitor.

"Ele não quer morrer. A questão nunca foi querer. Só que ele não pode mais ficar sozinho. Já passou tempo demais sozinho"

 A escrita da autora é envolvente e seu livro de aproximadamente 240 página pode ser lido - ironicamente - em apenas um dia. 
 Como toda obra jovem adulto de temática mais psicológica, Gayle Forman acerta ao criar novos protagonistas e explorar esse período na vida de qualquer ser humano, que pelo menos em algum momento de sua existência, se sentirá perdido.
 Se apenas não tivesse lido outros quinhentos mil livros semelhantes a esse, talvez fosse capaz de favoritar e dar cinco estrelas para esse novo romance da autora. Novamente, a idade avançada impediu-me de aproveitar melhor toda a gloriosidade que a cativante escrita de Gayle Forman sempre é capaz de me proporcionar.


Classificação: 4 de 5 estrelas.

x

Compre a obra:
Edição Nacional: Eu Perdi O Rumo
Edição Importada: I Have Lost My Way

Leia Também

0 comentários