Resenha: Filha Das Trevas (Saga da Conquistadora #1) - Kiersten White

20.10.18


"Though Lada did not know what would happen, she was certain of two things:
It would hurt, and she would need to be strong"

 "Filha Das Trevas" de Kiersten White é o primeiro volume da trilogia intitulada "Saga Da Conquistora" e conta a estória de Lada Dragwlya e seu irmão Radu, filhos de Vlad Dracul, o temido Príncipe de Valáquia que uniu-se a Ordem do Dragão para lutar contra o Império Otomano. Uma missão a qual não foi bem sucedida e o fez entregar seus únicos filhos para a corte inimiga.
 Desde crianças Lada e Radu são exilados em um país estrangeiro com costumes e religiões diferentes do familiar catolicismo. Aprendendo-se a adaptar, o bom e querido Radu aceita facilmente essa nova corte como sua casa, já a rebelde e determinada Lada reluta em esquecer Valáquia.
 A união complicada entre os irmãos, apenas torna-se mais emaranhada, quando a figura de Mehmed - filho do sultão - surge em suas vidas, dividindo seus sentimentos.
 Em um período marcado por lutas em busca de terras e guerras travadas em nome da religião, Lada e Radu devem escolher entre seus laços familiares, o amor por Mehmed ou seu desejo de voltarem para Valáquia e reconquistarem o país que é seu por direito de nascimento, nessa belíssima reinterpretação da história verídica de Vlad, o Empalador.
 Ao tornar Lada a versão feminina de Vlad III, Kiersten White transforma toda sua narrativa - e os feitos de sua protagonista no decorrer do enredo - em fatos extraordinários. Basta  digitar o nome de Vlad e abrir qualquer página no Google, para descobrir toda sua história e como sua crueldade até mesmo inspirou a criação do famoso Conde Drácula.
 E apesar dos fatos horripilantes e predileção por empalar suas vítimas, White conta nesse primeiro livro, acontecimentos não tão sanguinolentos assim. Acompanhando a estória de Lada desde o seu nascimento, a autora foi sábia o suficiente para criar certa empatia do leitor com a garota. Justificando suas supostas maldades com o contexto histórico o qual a garota estava inserida.
 Órfã desde pequena, Lada e seu irmão encontraram maneiras diferentes de sobreviverem. Enquanto Radu descobriu em seus gestos educados uma espécie de defesa contra as pessoas que desejavam feri-lo, Lada - como mulher - não tinha a opção de ser dócil e simplesmente aceitar o seu destino.
 Afinal, o nascimento da garota já estava marcado pela a promessa de ser oferecia à qualquer homem com poder, na intenção de selar acordos ou manter a paz entre nações.
 Inúmeras resenhas e leitores criticam a brutalidade de Lada e a menina realmente utiliza suas habilidades físicas como única forma de defesa, mas não achei em momento algum, que a garota fosse ruim por opção. Quando consideramos sua posição em um país onde o sultão possui um harém de mulheres a sua disposição, e que as garotas ali existiam apenas para procriarem, a revolta de Lada torna-se algo compreensível. 
  Descrevendo ano após ano de seu crescimento, tanto do ponto de vista de Radu quanto de Lada, a autora exemplifica, de maneira comovente, toda essa condição de nascer mulher em um período onde apenas o homem tinha poder sobre suas decisões. Os capítulos onde Lada inevitavelmente recebe seu primeiro sangramento mensal e dialoga com as mulheres do harém, marcam tristes passagens sobre sua falta de voz e opção.
 E é exatamente por isso que a presença de Mehmed, enfureceu-me completamente. A companhia masculina do filho do sultão mexeu com os sentimentos de ambos os irmãos, os quais sozinhos, viram no rapaz a única companhia viável dentro daquele ambiente hostil.
 Apesar da sinopse ressaltar o estabelecimento de um triângulo amoroso, não considerei essa informação tão verídica assim, visto que Mehmed - em nenhum momento da narrativa - envolve-se de forma romântica com Radu. Ele amava o amigo de uma maneira completamente diferente daquela a qual dizia sentir por Lada. 
 A meu ver, o que aconteceu com esses três, foi a existência de um relacionamento codependente, onde os irmãos, faziam tudo em nome desse amor que sentiam por Mehmed. E a todo instante eu torcia para que Lada e Radu desprendessem-se dessa união manipuladora. Já que, o futuro sultão, apesar de declarar seus sentimentos a cada cinco segundos para Lada, não parava de gerar filhos e herdeiros com as mulheres de seu harém.
 E ao chegar no final da narrativa, pode-se dizer que todos os meus desejos foram parcialmente atendidos, sendo Radu o único personagem que me desapontou com suas escolhas. Aliás, os capítulos do garoto, sempre marcaram a parte mais vagarosa do enredo. Talvez por que o irmão caçula, era o oposto da enérgica Lada.
 Mesmo entendendo e simpatizando com os sofrimentos do rapaz - Lada não foi a melhor irmã do mundo e o garoto era oprimido por seus próprios desejos  - torcia apenas para que ele conseguisse se libertar daquele tóxico relacionamento estabelecido com Mehmed.
 Entre as inteligentes artimanhas de Radu, orquestradas silenciosamente através de corredores obscuros e a raivosa Lada enfiando adagas e lutando até a exaustão com quem aparecesse em sua frente, a autora conseguiu balancear perfeitamente o equilíbrio entre os capítulos - mesmo assim, a narrativa de Lada chamou-me mais atenção.
 Apesar de ser repleto de conspirações, segredos, traições e lutas para chegarem ao trono, a obra de Kiersten White infelizmente não foge a regra da lentidão presente em todos os primeiros livros de uma trilogia, onde descrições mais fatigantes sobre o cenário e a personalidade de cada protagonista, alongam-se por páginas a fim. Entretanto, o final compensa alguns dos momentos mais pacatos da narrativa e guarda o melhor para o próximo volume da série, onde estou apenas aguardando Lada brilhar em toda a sua glória.
 Desdes os fãs de Sarah J. Maas até os leitores dos romances de Philippa Gregory, "Filha Das Trevas" é uma ótima fantasia histórica para todos nós que desejamos uma mudança de cenário em nossas leituras.
 Apresentando uma nova religião e explorando a figura não tão corriqueira de Vlad, o Empalador, Kiersten White deixa o leitor ansioso para descobrir o que o futuro reserva para Lada e Radu. Um dos irmãos mais complicados e opostos da literatura moderna.


 Classificação: 4 de 5 estrelas.

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