Resenha: Nevernight - A Sombra do Corvo (Nevernight #1) - Jay Kristoff

7.7.18


 É seguro declarar que "Nevernight - A Sombra do Corvo" de Jay Kristoff é um dos romances mais conflitantes dos últimos tempos. No universo literário você encontrará pessoas gritando: "O HYPE É REAL" de um lado, enquanto outras jogarão a obra lá para escanteio e nem ao menos terminarão sua leitura.
 No meu caso, consegui realizar a proeza de não me encaixar em nenhuma das opções anteriores, ficando realmente em cima do muro com a obra de Jay Kristoff. Mas tenho quase certeza de que se o vento soprar mais forte, cairei no time daqueles que simplesmente não entenderam o auê em torno desse livro.
 "Nevernight" apresenta uma bela e rebuscada sinopse oficial, apresentando ao leitor uma protagonista cheia de sangue nos olhos em uma cidade governada por Deuses impiedosos. Onde, num cenário excêntrico em que três sóis marcam o assassinato do pai de Mia Corvere e uma escuridão aterrorizadora toma conta da garota, ela procura treinamento e abrigo na Igreja Vermelha para poder vingar-se daqueles que executaram sua família.
 A meu ver, o verdadeiro resumo desse livro deveria ser: "Garota de 16 anos, após ver sua família ser destruída por uns imperadores poderosos, entra em uma escola de treinamento para assassinos - que na realidade parece uma mistura de Harry Potter com Academia de Vampiros - e fica presa por lá durante umas 400 páginas, fazendo migas, arrumando intrigas com as falsianes e transando com o crush nas horas vagas.
 Com notas de rodapé maiores do que a própria narrativa e uma linguagem rebuscada para mostrar o quanto o autor é o bonzão das palavras, seja você também, bem-vindo a Nevernight"  
 Se o livro tivesse sido vendido com essa sinopse, tenho certeza absoluta que iria com o espírito preparado para encarar esse falso calhamaço com menos de 500 páginas na versão original.
 Com a narrativa separada em três livros diferentes, há uma crítica a ser feita para cada pedaço desse enredo. Na primeira parte o autor simplesmente resolve vomitar metáforas na cara do leitor e "O, Deuses da Minha Paciência" quisera eu ter sido enforcada junto com o pai de Mia. 
 Jay Kristoff resolve intercalar o início do livro entre cenas de infância da protagonista e sua atual busca pela Igreja Vermelha. Toda a noção de cenário e universo dessa fantasia, a qual Corvere está inserida, é apresentada através das notas de rodapé e sinceramente, esse foi o maior tiro no pé que o autor poderia ter feito. 
 Era como se o leitor estivesse lendo dois livros dentro de um. Volto a repetir que as notas de rodapé eram tão grandes que após terminar sua leitura eu já havia esquecido completamente o que estava acontecendo com Mia na narrativa principal. Eu entendo a necessidade de inovação do autor ao escolher esse estilo de escrita, o que não entra em minha cabeça é o editor deixar ele seguir em frente com o que claramente era uma das piores escolhas possíveis para esse tipo de obra.
 Então, após você ler Mia lutando para encontrar o caminho até a Igreja Vermelha - abre aqui um parênteses para o nonsense que foi aquele monstro fora do plot que apareceu pouco antes dela localizar seu destino, aliás tinha de tudo um pouco nesse romance - a garota finalmente entra na escola e começa seu treinamento, dando início assim ao segundo livro.
 O que dizer dessa segunda parte, além do fato de um ser superior ter tomado conta do controle da mão de Jay Kristoff e escrito a maior cópia de Vampire Academy - sem vampiros - que o mundo já viu?
 Esqueça as notas de rodapé, esqueça os constantes "O, Aa" que o autor fez você engolir a seco na primeira parte. A mitologia, o universo e a vingança ficam todos em segundo plano quando Kristoff faz você ler 200 páginas de uma rotina escolar que não te leva a lugar algum.
 Após enfiar um plot capenga de "misteriosos assassinatos ocorrem nos corredores da escola" o enredo simplesmente estaciona. Parecia que estava assistindo uma versão sombria de "Meninas Malvadas" encontra "Divergente" e juntos fazem um passeio lá em "Trono de Vidro", tamanha foi a massaroca.
 Trocentos professores e personagens apareceram para complementarem todo o clima de investigação que o autor resolveu desenvolver e quando a obra não poderia ficar mais juvenil ainda, eis que entram as cenas de sexo entre Mia e seu boy magia.
 Devo dizer que nunca mais reclamo das bizarrices sexuais escritas por Sarah J. Maas, porque Jay Kristoff resolveu fazer a louca em seu próprio livro e jogar verdadeiros filmes pornográficos de pequenas durações, durante os encontros amorosos do casal. O que só serviu para diminuir ainda mais a moral de tudo.
 Não tenho absolutamente nada contra cenas eróticas - muito pelo contrário, até livros à la Ellora's Cave já cruzaram minhas leituras - acontece que Mia e seu rapaz tinham menos química e entrosamento que uma xícara com seu pires. Tanto que eu só descobri que eles teriam algum tipo de relacionamento quando eles propriamente dormiram juntos.
 E isso transformou as cenas de sexos em algo frio e com detalhes minuciosos que apenas me nausearam. Não bastasse já estar com um nojinho eterno de tudo, eis que Mia se sente a PODEROSA DA REPÚBLICA, por perceber que consegue manipular um menino de 16 anos através do sexo. Adolescência mandou um beijo.
 Então nada acontece até aqui, não podia me importar menos com nenhum personagem e assim inicia-se a terceira e última parte do livro, onde o autor resolve revelar quem era o misterioso assassino e quais suas motivações para tal plano maligno. Começa então a parte mais sangrenta do livro, com quinhentas mil mortes e Mia vingando tudo e a todos.
 Foi uma parte legalzinha? Verdade seja dita: levando em consideração os vários nadas que aconteceram, o final apresentou sua parte de aventura e emoção. Mas, faltando 100 páginas para o livro acabar eu meio que não me importava mais com a luta, as mortes, as traições e principalmente a humanização de Mia. E talvez esse tenha sido todo o problema desse obra.
  Mia foi a protagonista mais instável do universo literário. Uma hora era representada como uma mulher sem coração que iria matar a todos para conseguir o que queria, depois lá estava ela sendo justa e honrada. 
 As amizades e o suposto romance nunca amoleceram a menina a ponto do leitor acreditar que ela era uma protagonista assassina porém boazinha, assim como seu lado matadora apresentava morais que impediam-na de ser fria e calculista. Foi impossível entender sua personalidade ou qual era a dela. Parecia que a única coisa importante aqui era fazer a menina pagar de cool fumando seus cigarros, olhando o horizonte, enquanto fazia pose de catálogo "C&A" - a esteoritipação é real.
 Mia, a meu ver, ficou uma personagem mal construída e isso refletiu-se com os personagens secundários os quais eu nem ao menos prestava atenção em suas falas. Várias vezes senti a necessidade de comparar a garota com Rose Hathaway - diva - mas, nas palavras de Nick Miller:


 Além de todos esses problemas, há o agravante de existir no mercado editoral uns trocentos mil livros sobre a mesma temática de escola para assassinos e protagonistas femininas fodonas. Virou uma saturação no gênero, quase igual a aparição de vampiros em meados dos anos 2000. 
 E apesar de não evitar ou ter problema com nenhum desses clichês, é simplesmente difícil se sobressair entre a multidão de obras que relatam e descrevem a mesma coisa.
 Dito tudo isso, é possível entender os fãs fervorosos dessa trilogia. Ela realmente apresenta sua dose de ação, cenas sangrentas e uma ambientação sombria o suficiente para aqueles que buscam esses elementos em uma obra. 
 Tivesse eu lido esse livro no final da minha adolescência, ele estaria em um altar envolto por velas falsas em minha estante. Todavia, atualmente, ele já não funciona mais comigo. Principalmente por Vampire Academy ocupar todo meu jovem coração com seus doze livros perfeitamente imperfeitos.
 No final, "Nevernight" foi um livro que simplesmente nunca começou. Após finalizar sua leitura, senti ter lido um prólogo de 400 folhas que não me levou a lugar algum. O leitor começa e termina o livro sabendo exatamente a mesma coisa (o que é basicamente aquilo escrito na própria sinopse da obra).
 Nenhum elemento que poderia possivelmente segurar minha atenção - como o surgimento de outros darkins, o por quê o pai de Mia se rebelar contra o governo ou até mesmo a aparição de outras figuras envolvendo o passado da garota - foi ao menos pincelado e após ler a sinopse de "Godsgrave", resolvi encerrar meu relacionamento com essa trilogia por ora.
 A classificação final dessa obra é de 3 estrelas. 1 por ter conseguido finalizar a obra + 1 pelas ceninhas finais + 1 porque Bia 2008 ficaria p* da vida comigo por não ter favoritado essa obra.


Classificação: 3 de 5 estrelas.

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Edição Importada - Nevernight

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