Resenha: Uma Proposta e Nada Mais (Clube dos Sobreviventes #1) - Mary Balogh

1.6.18


"Eu tinha que querer. Não porque precisasse provar algo a alguém (...) Não: só foi possível, Gwen, porque eu quis aquilo para mim. Tudo fluiu a partir desse desejo. As pessoas, sobretudo as religiosas, dão a entender que é errado, até mesmo pecado, amar a si mesmo. Não é. É o amor básico, essencial. Quando você não ama a si mesma, não tem condições de amar mais ninguém. Não de maneira completa e verdadeira"

 "Uma Proposta e Nada Mais" é o primeiro livro da nova série "O Clube dos Sobreviventes" de Mary Balogh e nele somos apresentados a estória de Hugo, também conhecido como lorde Trentham, um ex-soldado responsável por comandar uma missão suicida da qual foi um dos poucos sobreviventes.
 E ao retornar para casa, o homem depara-se com o falecimento de seu pai e uma nova responsabilidade cai sobre seus ombros ao assumir seu novo título aristocrático e cuidar da irmã e madrasta desamparadas. 
 Sozinho e ainda atordoado com seu passado, Hugo descobre que apenas uma esposa poderia ajudá-lo nessa nova etapa de sua vida. Eis então, que o rapaz conhece Gwen.
 A jovem viúva estava longe da perfeição, manca de uma perna devido a um terrível acidente de cavalo e com um antigo casamento permeado de infelicidades, a última coisa que Gwendoline queria era unir-se em sagrado matrimônio novamente. Todavia, ao encontrar lorde Trentham, a moça descobrirá que eles possuem mais em comum do que imaginavam.
 Ninguém está mais surpresa do que eu mesma, pelo quanto gostei desse novo livro de Mary Balogh. Após colocar o resto da série "Os Bedwins" na lista de espera, não iniciei essa leitura com grandes expectativas e foi uma verdadeira alegria encontrar - finalmente - um romance de época digno de seu gênero.
  O primeiro livro da série nos apresenta a todos os personagens que farão parte do famoso "Clube dos Sobreviventes" e diferente do que esperava, Mary Balogh não se prolonga ou aprofunda-se nas descrições de todos esses guerreiros. O que já foi o primeiro ponto positivo da obra, pois temia que a autora se alongasse na descrição de todos esses personagens, fato que deixaria a narrativa cansativa.
 Além disso, a obra também surpreende o leitor ao quebrar inicialmente a ambientação tradicional dos salões londrinos e explorar locais diferentes, como a casa onde está reunido esse grupo e sua localização praiana. Até a metade do livro, todo esse cenário nublado a beira mar, marca a narrativa e dá um novo fôlego antes de os protagonistas, infelizmente, caírem em seus locais corriqueiros.
 Porém, até mesmo a parte sobre a sociedade londrina não foi algo em vão nessa narrativa, visto que a escritora utilizou esse momento para contrastar as realidades e origens distintas dos protagonistas.
 Não bastasse todos esses detalhes, que foram como pequenos presentes para os olhos cansados dessa leitora a qual não aguentava mais a mesmice dos romances, Mary Balogh veio dar uma aula de amor próprio e criar um relacionamento realista entre os mocinhos.
 Gwen e Hugo eram polos opostos na sociedade, porém através do diálogo ambos os protagonistas foram descobrindo um ao outro e entendendo a si mesmos. Foi gratificante ler um livro onde a mocinha sentia-se sozinha e desesperançosa, porém não procurou sanar esses problemas ao casar-se de maneira desesperada com o herói apenas para ter uma companhia masculina.
 Por não ser uma debutante e já ter tido um marido, Gwen não era aquela típica protagonista iludida. E foi uma surpresa descobrir que a jovem também possuía suas próprias feridas.
 Ao iniciar a leitura, imaginei que a garota passaria o livro inteiro tentando libertar Hugo de seu sofrimento - já que ele era o membro "oficial" do clube dos sobreviventes - mas, na realidade os dois se ajudaram mutuamente.
 Hugo, com sua personalidade durona e fechada, amoleceu aos poucos durante suas interações com Gwen. E em nenhum momento da narrativa houve um desequilíbrio entre eles, tanto o homem, quanto a mulher cederam igualmente para fazerem o relacionamento funcionar.
 E foi maravilhoso perceber o quanto eles viam o casamento como algo além do simples fato de amar a outra pessoa. Portanto, durante toda a narrativa eles trabalharam para transformar aquilo que nutriam um pelo outro em algo substancial, de maneira a fazer a união e todos os seus mecanismos funcionarem.
 Em um universo sempre utópico e as vezes, levemente machista, as autoras tendem a escrever veladamente que as heroínas terão todos os seus problemas resolvidos quando casarem-se com alguém e Mary Balogh foi uma das poucas escritoras a criar uma narrativa, elucidando o fato de que nós mulheres devemos amar a nós mesmas em primeiro lugar.  
 Ela fez uma mocinha viúva e um pouco mais madura que realmente aprendeu suas lições na vida. O mesmo ocorreu com o protagonista masculino. Logo, ao chegarmos no final da narrativa foi bonito de ler/ver o quanto os dois protagonistas ajudaram-se mutuamente a curarem suas feridas de maneira sensível e carinhosa.
 Ainda que Balogh não possua o humor típico de Julia Quinn ou o dom para cenas mais picantes de Lisa Kleypas, sua narrativa vem permeada de um sarcasmo sutil, junto de elementos levemente poéticos que compõem toda a moral de sua obra, a qual não gira apenas em torno do romance em si.
 Todos os elementos desse enredo se encaixam perfeitamente e apesar do flerte entre os protagonistas seguir a ordem inversa da maioria de seu gênero, o leitor fica inquieto para ver o desenrolar da corte entre Hugo e Gwen, esperando ansiosamente o próximo beijo do casal ou até mesmo seus encontros. E essa inquietação é tudo o que eu quero sentir ao ler esses livros. 
 Com personagens bem estruturados, uma narrativa progressiva e um desfecho adorável, Mary Balogh acerta em cheio na criação de seu novo romance e eu mal posso esperar para ler o restante dessa série e guardar essas capas encantadoras na minha estante.

Classificação: 4.5 de 5 estrelas.

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Edição Nacional: Uma Proposta e Nada Mais - Volume 1. Série Clube dos Sobreviventes

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