Resenha: Tartarugas Até Lá Embaixo - John Green

15.11.17


"The thing about a spiral is, if you follow it inward, it never actually ends. It just keep tightening, infinitely".

 "Tartarugas Até Lá Embaixo" foi lançado mundialmente há menos de um mês e desde então o livro está na minha enorme e crescente pilha de leitura, até que um belo final de semana, resolvi tirá-lo do limbo.
 A aclamada obra narra a estória de Aza, uma adolescente de dezesseis anos que tem dificuldades em agir como os demais - não porque ela é rebelde - mas, porque ela sofre de uma doença chamada: transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
 Como enredo para esse romance introspectivo, surge Davis - o garoto da casa ao lado - cujo desaparecimento repentino do pai, envolve Aza em uma busca pelo bilionário. Iniciando assim, o desenrolar da narrativa.
 Sendo leitora assídua das obras de John Green, desde 2010, criei um laço afetivo com esse autor - assim como outros milhares de leitores, os quais se identificam com seus romances e personagens - portanto, "Tartarugas Até Lá Embaixo" tinha todos os pré-requisitos para ser um bom livro e felizmente ele atingiu seu objetivo. 
 No entanto, a empolgação generalizada com o lançamento dessa obra, não a tornou imune a alguns problemas de desenvolvimento e execução. Os quais serão exemplificados nos parágrafos conclusivos dessa resenha, já que primeiramente é necessário citar os pontos positivos dessa trama. 
 Ao abrir o livro e ler o primeiro capítulo, fica evidente para o leitor que essa obra será única e exclusivamente sobre a jornada mental de Aza e suas dificuldades em lidar com sua doença. Então, fiquei extremamente feliz quando John Green, abordou de forma realista as características de seu transtorno.

"If taking a pill makes you different, like if it changes the way-down you... that's just a screwed-up idea, you know? Who's decinding what me means- me or the employees of the factory that makes Lexapro? It's like I have this demon inside of me, and I want it gone, but the idea of removing it via pill is... I don't know... weird. But a lot of days I get over that, because I do really hate the demon".

 Todas as cenas nas quais Aza sentia-se invadida pelos seus pensamentos obsessivos foram difíceis e até mesmo aflitivas de ler. A personagem foi extremamente bem construída, a ponto de fazer o leitor identificar-se com suas crises e ter empatia por seus confrontos psicológicos. Afinal, quem nunca se viu sentado, com o Google aberto no celular, procurando respostas para suas paranoias e tendo todos os seus medos confirmados ao encontrar algum texto na internet sobre tal questão? 
 As famosas "espirais de pensamento"; os "demônios internos"; a "prisão de células", "os pensamentos colonizadores" e as várias outras metáforas - ainda que, por vezes utilizadas de formas excessivas -  conseguiram captar e exprimir todas as sensações e lutas íntimas de Aza. 
 Suas dúvidas e tentativas de descobrimento pessoal - sobre quem era a autor de sua vida e o que ditava os seus dias e decisões - ultrapassavam a mera prosa de John Green, acrescentando um tom poético e nostálgico em sua narrativa, na qual Aza, sentia uma constante saudade de tudo aquilo que ela ainda não havia vivido. 
 Portanto, mesmo carregado de algumas noções clichês, o autor consegue fazer todos os elementos se encaixarem primorosamente, de maneira a criar uma bela obra. E para isso, foi fundamental a participação de alguns personagens secundários, como Daisy - a melhor amiga - a qual finalmente, tinha uma personalidade, ao invés de ser apenas mais uma coadjuvante despovoada de traços característicos.

"Welcome to the future, Holmesy. It's not about hacking computers anymore; it's about hacking humans souls"

 De todos os relacionamentos desenvolvidos nesse livro, a amizade entre Aza e Daisy foi o ápice da narrativa. As duas garotas eram verdadeiras entre elas e Daisy não tratava Aza diferente, apenas por ela ter TOC. Os diálogos eram honestos e as duas meninas eram descritas com suas qualidades e defeitos. Trabalhando juntas nos problemas corriqueiros, resultados dos anos de convivência.
 Agora, diferente das garotas, foi o relacionamento criado entre Aza e Davis. O bilionário rapaz, teve um sério problema em sua construção e o clichê que funcionou ao montar a estória de Aza, claramente falhou com esse personagem masculino.
 O infortúnio de Davis, é que sua introdução foi manchada por inúmeras frases e situações estereotipadas. Ele era o garoto bilionário da casa do lado, com crise existencial devido a falta da figura paterna, mas nas horas vagas ele escrevia poemas e contemplava as estrelas.
 Quando o garoto diz: "My good lines are always stolen. I lack all conviction"; senti que John Green sintetizou tudo aquilo que sentia em relação ao rapaz. O relacionamento entre ele e Aza foi vazio e não acrescentou nada de importante nem na vida dos personagens, nem na dos leitores.
 Davis e seu irmão Noah, a meu ver, só surgiram na estória para exemplificaram as dores do amadurecimento e a desilusão que todos nós sentimos, ao crescermos e compreendermos que nossos pais não são super-heróis. E nessa parte da narrativa, na qual Davis tenta entender os adultos e suas motivações, foi o único momento do enredo que consegui desenvolver uma leve empatiaCom pelo rapaz. 
 O romance poderia ter sobrevivido perfeitamente sem a presença dos garotos Pickett, visto que John Green nem ao menos desenvolveu propriamente o enredo do desaparecimento de Russell Pickett - pai dos rapazes.
 Longe de mim reclamar da falta de ações "Scooby Doo" nessa obra - "Cidades de Papel" teve investigação suficiente por todas as outras do autor - no entanto, ao tirar o foco do sumiço do bilionário o livro perde consideravelmente sua trama. Transformando-se integralmente em um romance psicológico. 
 A "sorte" é que o enredo de Aza compensa todas essas falhas de execução e desenvolvimento, fazendo com que "Tartarugas Até Lá Embaixo" receba 4 de 5 estrelas na classificação final. 
 Com uma prosa lírica e verídica, John Green finaliza sua nova obra em tom profético e esperançoso, dando aos leitores - principalmente aos adolescentes - a percepção de que nada é estático e o futuro é uma página em branco.

"And I knew I would remember that feeling, underneath the split-up sky, back before the machinery of fate ground us into one thing or another, back when we could still be everything".


Classificação: 4 de 5 estrelas + <3

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Compre a obra:
Edição Nacional - Tartarugas Até Lá Embaixo
Edição Importada - Turtles All the Way Down

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1 comentários

  1. Oi querida!

    Eu adorei a resenha, fotos e os quotes. Achei que essa foi a resenha mais esclarecedora de todas, pois fiquei com tanto receio de ler o livro lendo alguns "Spoilers".

    P.s agora eu sei que o livro não é tudo isso que falam. Tem uma ótima história e tudo mais... mas ele tem alguns pontos fracos.

    Beijoss, Enjoy Books

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