Resenha: O Resgate No Mar | Parte 1 e 2 (Outlander #3) - Diana Gabaldon

1.8.17


 Ler o terceiro volume da série Outlander é basicamente experimentar a mesma sensação que Claire deve ter sentido ao atravessar o círculo de pedras em Craigh na Dun: perder-se inteira e completamente em um universo extremamente diferente de sua realidade.
 "O Resgate No Mar", ou "Voyager" título original do romance, iguala-se com esmero as obras antecessoras de Diana Gabaldon. Nessa nova e empolgante aventura, Claire e Jamie deparam-se com situações aterrorizantes de serem enfrentadas, principalmente agora que ambos devem encarar a estranha realidade de viverem separados um do outro.
 Afinal, após a guerra em Culloden, Claire viajou novamente para seu tempo, acreditando cegamente no fatídico destino que aguardava Jamie nessa brutal batalha que dizimou todos os clãs e cultura das Terras Altas. Sem olhar para o passado, Claire viveu 20 anos em seu tempo, criou sua filha Brianna e permaneceu casada com Frank durante todo esse período.
 E é apenas após o falecimento de seu atual esposo que Claire finalmente retorna à Escócia para pesquisar sobre qual foi o verdadeiro destino de Jamie Fraser. E felizmente, para sua surpresa, nossa atual médica descobre que seu segundo marido não morreu na guerra como ela imaginara.
 Inicia-se então todo um trabalho de pesquisa entre Claire, sua filha Brianna e o historiador Roger para descobrir o verdadeiro paradeiro de Jamie. Uma vez encontrada e comprovada sua existência, Claire depara-se novamente com uma decisão que mudará toda sua vida: atravessar novamente o círculo de pedras e reencontrar-se com seu grande amor ou continuar nos anos 60 e permanecer ao lado de sua filha Brianna?
 Infelizmente, todo meu carinho por essa obra não permite que essa resenha seja livre de spoilers, portanto só prossiga na leitura desse texto caso você tenha lido "O Resgate No Mar - Parte 1 e 2".
 O começo de "Voyager" retoma com perfeição toda a angustia e sofrimento já experimentados pelo leitor ao finalizar a leitura de "A Libélula No Âmbar" (clique no título para ler a resenha). Claramente já consciente de que Claire e Jamie viveram separados por anos e anos, tudo o que nós mais queremos é ler sobre esse iminente reencontro do casal.
 Porém, para nossa ansiedade, Diana Gabaldon utiliza aproximadamente umas 400 páginas para narrar os fatos mais importantes que ocorreram na vida desses dois protagonistas enquanto eles viviam isoladamente. 
 E é justamente nesses capítulos que alguns personagens importantes são apresentados na trama; como o famoso Lord John Grey. Assim como, infelizmente, outros secundários voltam para reassumir seus postos, sendo Laoghaire e Geillis Duncan as principais estrelas dessa obra (abro aqui esse parênteses para registrar o quando eu detesto Laoghaire).
 Apesar de alguns capítulos sobre esse período de separação serem difíceis de ler, eles foram "um mal necessário". Afinal é impossível ignorar 20 anos da vida de uma pessoa e retomar imediatamente as coisas como se nada tivesse acontecido.
 E Diana Gabaldon faz um trabalho perfeito em sumarizar esses anos, tanto que consegui até mesmo aproveitar essa parte do enredo, pois o leitor fica curioso em descobrir como Claire e Jamie viveram desde então.
 Confesso que os capítulos de Claire e Frank não foram tão sofríveis de ler, afinal nessa altura do campeonato já estava conformada que eles ficariam juntos e criariam Brianna. Portanto, não afligiu-me terrivelmente essas cenas. Na vida de Claire, o acontecimento que mais me impactou durante a leitura foi o fato dela abandonar sua filha e resolver voltar definitivamente para o passado.
 As partes entre ela e Brianna foram realmente tristes, pois ainda que a jovem garota compreendesse a necessidade da mãe em voltar para o século e o homem que ela pertencia verdadeiramente, foi difícil ignorar que a menina acabou perdendo tanto seu pai quanto sua mãe.
 Admirei muito o bom coração e a compreensão de Brianna nessa obra, pois sendo eu mesma filha única, sei que ficaria chateadíssima se aos 19 anos minha mãe me abandonasse por outra pessoa e me deixasse literalmente sozinha no mundo. Por mais que Claire faça todos os arranjos para que sua filha fique com a casa e tenha todos os meios possíveis para se sustentar, nada equipara-se a presença de uma mãe.
 Apesar de sentir a dor de Brianna com a perda dos pais, nenhum sofrimento foi maior do que ler as cenas nas quais Jamie deitou-se com Geneva e juntos eles tiveram o menino Willie (p.s: único conforto desse livro foi saber que Geneva morreu após o nascimento do menino - e eu não me arrependo nem um minuto por comemorar seu falecimento, afinal não precisávamos de outra mulher atrás de Jamie).
 Conclui-se então, que o período de 20 anos de Jamie, foram doloridos demais para mim. Afinal só infelicidade aconteceu na vida desse homem. Ele machucou-se gravemente na guerra; passou anos morando em uma caverna; foi preso; teve que separar-se de seu filho; protagonizou um casamento fracassado com Laoghaire e várias outras desventuras ocorreram até o retorno de Claire.
 Sem falar na presença aterrorizante de Lord John Grey no início desse romance, uma vez que esse personagem era basicamente um eco de Black Jack. Porém, felizmente a autora resolveu criar um vínculo de amizade forte entre ambos os rapazes e nós leitores não fomos obrigados a ler novamente Jamie sendo torturado ou estuprado por outro homem, fato que foi de grande alívio para minha mente.
 Ainda que separados, Gabaldon criou certos paralelos na vida desses personagens. Portanto, algumas coisas que Jamie fazia no século passado, Claire também acabava por replicar a mesma ação no presente. E isso gerou basicamente uma reação cíclica, dando a sensação de que a vida deles estava sempre intercalada de alguma maneira.
 Sem falar nos momentos graciosos nos quais Jamie, sempre lembrando dos ensinamentos de Claire, procurava desinfetar os objetos ou saía procurando folhas para escovar os dentes e alimentos próprios para evitar o escorbuto entre seus amigos da prisão (*suspira encantada*).
 Então, diferente do que imaginei, adorei essa parte inicial da obra. Afinal de contas foram todos esses acontecimentos que moldaram e modificaram Jamie e Claire, transformando o reencontro dos dois em algo bonito, porém bem realista de ler.
 Na minha opinião, o ponto alto da obra em geral, foi ler o desenvolvimento do relacionamento de Claire e Jamie. Gabaldon faz um magnifico trabalho ao não romantizar de maneira açucarada essa nova relação entre ambos.
 Afinal, tanto Claire quanto Jamie não são mais aqueles jovens de vinte e poucos anos que casaram-se e vivenciaram uma estória de amor única. Então, quando Claire vai novamente ao encontro de Jamie eles basicamente iniciam um novo relacionamento. É hora de deixar para trás aquela imagem idealizada e maculada que ambos guardaram em sua mente e seu coração por 20 anos e descobrir finalmente como funcionar juntos novamente.
 Foi o primeiro livro da série na qual senti que Jamie, apesar de amar Claire, relutou bastante em aceitar sua presença. Pois, verdade seja dita, ele nem sonhava que um dia sua esposa voltaria para ele. Enquanto Claire teve tempo para preparar-se mentalmente, Jamie foi pego de surpresa e o rapaz acabou ficando receoso de expor imediatamente todos os acontecimentos de sua vida à moça.
 Então, para mim a cena épica desse livro, foi quando finalmente todos os segredos entre eles foram revelados e juntos eles reencenaram seus votos de casamento. Foi naquele momento específico da narrativa, que o leitor tem certeza de que nada nem ninguém separará esses dois novamente (amém).

"Pressionei meu próprio pulso contra o dele, pulsação contra pulsação, batimento contra batimento.
- Sangue do meu sangue... - murmurei.
- Ossos dos meus ossos. - Sua voz era grave e rouca. Ele se ajoelhou subitamente diante de mim e colocou as mãos entrelaladas dentro das minhas; o gesto de um escocês das Terras Altas ao jurar lealdade a seu líder. - Eu lhe dou meu espírito - disse ele, a cabeça inclinada sobre nossas mãos.
 - Até o fim de nossas vidas - eu disse suavemente. - Mas nossas vidas não chegaram ao fim, Jamie."


 Além de toda a questão psicológica que envolve relacionamentos e o desenvolvimento dos personagens, Diana Gabaldon novamente nos surpreende ao criar inúmeros problemas na vida de Jamie e Claire, principalmente durante a parte final da obra na qual eles foram resgatar o Jovem Ian que fora sequestrado e  estava em um navio em direção a África.
 Em um momento de honestidade, confesso que adorei todo o trabalho de pesquisa que a autora claramente fez para descrever esse novo país assim como seu povo e cultura, porém as cenas no navio e nesse local tiveram ação em excesso para o meu gosto. Sem falar que eu sempre sinto falta do cenário Escocês nas obras de Diana Gabaldon, então esses foram os únicos pontos negativos da leitura para mim.
 E também a adição de Marsali, esposa de Fergus, foi algo não muito agradável. Filha de Laoghaire, a jovem menina era rude com Claire no início e posteriormente ela continuou me irritando com sua mania infantil de chamar Jamie e Claire de "papai" e "mamãe", literalmente queria amordaçar a moça.
 Pobre Jamie e Claire não conseguiam ter um minuto de sossego, porque a cada capítulo alguma coisa pior do que a outra acontecia. De toda essa parte final, o que eu mais gostei foi a cena de  Geillis Duncan fazendo seu bizarro ritual de magia para voltar novamente ao futuro. O misticismo e toda a atmosfera sombria realmente marcaram o tom perfeito para o desfecho da narrativa.
 "O Resgate No Mar" é um livro perfeito e completo do começo ao fim; tem drama, romance, aventura e até mesmo ficção científica; foram mais de 1000 páginas de puro entretenimento e imersão completa nesse universo criado com maestria por Diana Gabaldon. A habilidade da autora em fazer o leitor engajar-se com seus personagens transforma, não só essa obra, como toda sua série em uma maravilhosa experiência de leitura. Toda sua escrita é feita com extrema perfeição de detalhes, tanto descritivos como psicológicos, fazendo com que até mesmo as cenas mais cotidianas sejam fascinantes para o leitor.
  Isso sem comentar a inegável evolução que esses livros veem apresentado. A cada obra, o universo de Jamie e Claire expande-se cada vez mais. Novos personagens aparecem, assim como diferentes países são inseridos e explorados no decorrer da narrativa. Fatos que novamente exemplificam a habilidade da autora, que em nenhum momento ficou estagnada ou presa em sua própria ideia inicial (em suma, uma salva de palmas à Diana Gabaldon).
 Portanto, estou com o coração partido por ter finalizado esse livro, tamanha familiaridade havia criado com todos os personagens dessa série. Abrir essa obra todos os dias, era como aproveitar o efeito de um verdadeiro bálsamo para minha mente e coração.
 Estou extremamente ansiosa para ler o próximo volume, no qual aparentemente um encontro entre pai e filha promete destruir ainda mais meu emocional. Sem mencionar o vasto leque de novos casais e suas tramas que intercalarão a narrativa com Claire e Jamie (afinal, eu já estou no ship de Roger e Brianna desde o livro passado).
 Sendo assim, conclui-se com essa leitura que "Outlander" é atualmente a melhor série de livros existente e todos vocês deveriam ler esse livros e maratonar o seriado agora mesmo na Netflix. Aliás, é exatamente isso que eu farei agora, rever todas as temporadas do seriado, porque eu simplesmente me recuso a voltar para essa infeliz realidade onde não existem pedras mágicas ou Jamie Fraser.


Classificação: 5 de 5 estrelas + <3

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