Resenha: Ladrões de Sonhos (The Raven Cycle #2) - Maggie Stiefvater

29.9.16

*Resenha contém spoilers de "Os Garotos Corvos"*

 "In that moment, Blue was a little in love with all of them. Their magic. Their quest. Their awfulness and strangeness. Her raven boys."

 Se "Os Garotos Corvos" foi um livro ótimo (clique no título para ler a resenha), "Ladrões de Sonhos" não ficou atrás. Com sua escrita poética e temática inovadora Maggie Stiefvater comprova todo o potencial e magnificência que a série "The Raven Cycle" possui (o que significa que você deve largar tudo o que está fazendo e ler esses livros agora mesmo) .
 No segundo livro dessa saga o leitor é apresentado ao enredo que envolve Ronan e sua habilidade de retirar coisas de dentro de seus sonhos (how cool is that?), porém como toda questão mágica pede um equilíbrio, os garotos descobrem que os sonhos sobrenaturais de Ronan estão enfraquecendo a linha ley e consequentemente atrapalhando a busca por Glendower (aquele rei galês que eles estão procurando há anos). Além de fazer Cabeswater (a floresta mágica onde supostamente o rei está desaparecido) sumir do mapa.
 Não bastasse toda essa confusão sobrenatural, Blue e os meninos devem lidar com o aparecimento de um assassino na cidade, o Sr. Cinzento, que está em busca do Greywaren, um objeto utilizado para retirar coisas dos sonhos (ou seja todo o enredo gira em torno dessa temática à la Salvador Dali).
 Com um evidente foco no personagem de Ronan (pode-se dizer que ele praticamente é o protagonista desse livro), Maggie Stiefvater cria uma das melhores sequências que li nos últimos anos. "Ladrões de Sonhos" não fica estático ou preso aos problemas do primeiro livro, a obra evolui e expande a temática da série de maneira genial; deixando o leitor ainda mais cativado pelos personagens e o universo sobrenatural no qual estão inseridos.
 Porém isso não quer dizer que o livro seja totalmente imune à problemas e no meu caso, a maior dificuldade que encontrei no decorrer da leitura, chama-se: Joseph Kavinsky.
  Não há como negar que esse livro é uma carta de amor da autora à Ronan Lynch, desde o prólogo até o epílogo o leitor acompanha toda a história de vida do rapaz de maneira a entender (ou tentar) os motivos pelos quais ele apresenta essa personalidade agressiva e temperamento explosivo.
 Julguem-me o quanto vocês quiserem, mas Ronan é o personagem que menos gosto nessa série, desde o primeiro livro meu amor é dividido entre Gansey e Adam (se bem que perdi a paciência com Adam nesse livro também, mas isso é assunto para parágrafos futuros).
 Então já tendo uma predisposição à desgostar de Ronan, surpreendi-me ao ver-me ansiosa em ler os capítulos nos quais o garoto sonhava e retirava objetos de sua mente. O processo de criação do sonho foi tão bem descrito pela autora que era impossível não ficar "vidrada" nas cenas em que Ronan dormia.
 No entanto, passado o impacto da descoberta inicial, Ronan une-se a Kavinsky para juntos fazerem coisas de adolescentes ricos, ou seja: fumar; beber; se drogar; apostar corrida de carros e depois queimar os carros novos porque eles tem dinheiro para comprar outros, entre diversas coisas mais.
 Essas foram as piores partes do livro, simplesmente fiquei bem entendiada lendo as infinitas descrições de carros e os meninos fazendo uma bobagem atrás da outra. Na maior parte desses capítulos, lembrei-me dos livros de "Gossip Girl" e sinceramente acho que Stiefvater poderia ter nos poupado dessa abundancia de testosterona adolescente. 
 A única coisa boa que resultou dessa interação entre Lynch e Kavinsky foi a filosofia de vida de Gansey. Adorei ler como o garoto visualizava a situação e identifiquei-me completamente com o rapaz quando ele disse que pessoas como Joseph acreditavam que a vida era um vídeo clip (bati palmas mentalmente nessa parte). 
 Acho de extrema importância ter essa opinião inserida dentro de um romance jovem adulto, pois os adolescentes (e até mesmo nós adultos) temos essa tendência de romantizar situações que visualmente só são perfeitas na dramaturgia.
 Tirando a questão mitológica e sobrenatural, a visão realista da autora em questões do dia-a-dia é o que mais me sensibiliza e impressiona. Lembro-me de ler um capítulo no qual Blue e sua mãe estão deitadas na cama chorando por seus problemas ao mesmo tempo que uma tenta consolar a outra. A veracidade da interação entre mãe e filha é tão singela e comovente que o leitor realmente consegue identificar-se com as mulheres e vivenciar seus sentimentos, mesmo elas possuindo habilidades extraordinárias e serem diferentes de nós mortais.
 É apelando para esse lado quase verídico e mais realista que conseguimos entender as motivações de todos os personagens do livro, até mesmo daqueles que não gostamos muito ou mudaram demais porque sacrificaram suas vidas à Cabeswater, como aconteceu com o Adam.
 Parrish era um dos meus meninos favoritos, mas nesse livro ele realmente ficou temperamental demais. O rapaz queria bater em todo mundo; gritava com todas as pessoas; não deixava ninguém o ajudar e eu fiquei sem paciência com seu comportamento. Mas no final da narrativa tudo acaba se encaixando e o leitor compreende o motivo pelo qual ele estava agindo dessa forma, justamente porque a autora apela novamente à verossimilhança.
 As mulheres do livro continuam arrasando com suas personalidades etéreas; a temática de magia e mistério segue sendo bem desenvolvida e o epílogo da obra faz qualquer leitor querer chorar de frustração (ainda bem que não preciso esperar anos para ler a continuação).
 Reconheço que senti bastante falta de ver a Blue mais ativa nesse livro, nossa heroína teve seus problemas meio esquecidos durante o enredo e isso (junto com as partes de Joseph Kavinsky) fizeram-me tirar uma estrela da classificação dessa obra.
  Contudo o livro em termos de fantasia é perfeito. Mesmo sendo atual, o universo de Maggie Stiefvater ainda me faz sentir aquela nostalgia, como se voltasse a ser criança e estivesse assistindo filmes de bruxas dos anos 80/90 na "Sessão da Tarde". Se a saga continuar nesse rumo, tenho certeza de que ela entrará para minha lista de favoritas.


Classificação: 4 de 5 estrelas.

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