Resenha: A Maldição do Vencedor (The Winner's Trilogy #1) - Marie Rutkoski

14.6.16


 "A Maldição do Vencedor" ou "The Winner's Curse" (título original) é um daqueles livros que todo mundo lê; adora e recomenda. Portanto, como uma pessoa incrivelmente influenciável, deixei-me levar pela intensa propaganda desse livro e acabei comprando-o para também viciar-me nessa obra que supostamente seria a melhor coisa que eu leria em 2016. Spoiler alert: Não, "The Winner's Curse" não foi o melhor livro do ano.
 Deixa eu contar à vocês os motivos pelos quais o sucesso e a publicidade desse livro são totalmente enganadores. Se você gosta dessa trilogia, por favor não leia essa resenha, pois minha intenção não é desrespeitar seus sentimentos.
 A ideia inicial da obra é a seguinte: Kestrel, nossa protagonista, é filha do poderoso general de Valória e antes de completar 20 anos a moça deverá optar entre casar-se ou entrar para o exército. Seu pai, como general quer que a filha siga seus passos, porém Kestrel sabe que não leva jeito nenhum com luta corporal e armas.
 Nossa protagonista limita-se a ser mais uma "Patricinha de Beverly Hills" jogada dentro de uma pseudo-distopia e portando a garota passa as 100 primeiras páginas do livro fazendo comprinhas de roupas e jóias; indo à festas;  jogando jogos de tabuleiros e tomando todos os tipos de vinhos para personificar completamente a imagem de moça rica e mimada.
 Em um belo exemplo de sua personalidade extravagante, Kestrel acaba acidentalmente dentro de um leilão de escravos e gasta um valor escandaloso para comprar Arin, o escravo "moreno alto, bonito e sensual".
 Arin, nosso protagonista, pertence aos Herranis, cuja raça foi escravizada quando os Valorians tomaram suas terras. Então nem preciso dizer que mais uma vez foi utilizada a questão "Montecchio X Capuleto" para a criação do romance ardente e proibido. 
 E assim termina a premissa, bem simples e com alguns elementos clichês, da obra de Marie Rutkoski. Aparentemente deve ser uma leitura rápida e agradável não é mesmo? Mas deixa eu tirar sua ilusão e dizer que demorei 15 dias para ler esse livro, porque absolutamente nada de novo ou interessante aconteceu nessa obra até aproximadamente a página 150.
 O leitor é obrigado a ler um terço do livro onde nada acontece. Como eu já disse, Kestrel fica indo em festas, jogando jogos de tabuleiro, conversando futilidade com sua amiga Jess e nas horas vagas arrastando Arin atrás dela para acompanha-lá nessas tediosas festas ou jogos bobos.
 Sabe a suposta "fantasia / mundo distópico" que o livro deveria trazer? Ele é inexistente. A autora joga, literalmente, dois povos que são inimigos e espera que o leitor construa sozinho todo um contexto histórico que ela preguiçosamente não elaborou ou desenvolveu. Durante a leitura pensei comigo: "Mas por que os Valorians dominaram os Herranis? Foi só por que eles se achavam superiores? De que maneira ocorreu essa guerra de colonização? Como eles montaram esse novo governo democrático? Por que Kestrel só pode escolher entre o casamento e o exército se isso nem é uma monarquia? Ela não precisa casar para garantir o país ou conquistar outro país como os reis e rainhas faziam na Idade Média."
 Inúmeras perguntas não são respondidas, pois a autora resolveu escrever da maneira mais arrastada possível um romance tão sem açúcar, que chegou a ficar amargo. Me desculpem, mas não senti em nenhum momento aquele entusiasmo ou emoção lendo as cenas de interação entre o casal.
 Kestrel e Arin pareciam desconfortáveis consigo mesmos e mais uma vez os diálogos eram tão fracos que não foi possível entender como no final da narrativa eles já estavam desesperadamente apaixonados e questionando sua lealdade para com seu povo.
 Não quero ser grosseira, mas a Kestrel é chata (#prontofalei). O egocentrismo dessa menina é infinito. Pode morrer o mundo todo, mas não machucando ela ou quem ela gosta, o resto que se exploda. A cena do barco foi a prova concreta disso, pois a menina vê dezenas de pessoas morrendo por culpa do próprio plano que inventou e no final, porque ela não queria correr o risco de machucar sua linda cútis, ela simplesmente desiste da ideia e dane-se quem morreu por culpa dela mesma.
 Arin, é apresentado inicialmente como um Deus grego, mas na realidade ele é só um boca aberta que passou 80% da narrativa tentando agradar Kerstrel. Mesmo quando já não era mais necessário o garoto agir como seu escravo, ele continuou lá firme e forte tentando se desdobrar em mil pedaços para não deixar nossa diva flawless chateada.
 Lá pela página 200 o livro já está envolvido em um plot de guerras e lutas, mas mesmo assim as cenas de ação são curtas demais e não impressionam. Quando já estava perto da página 310, pensei ingenuamente que a autora iria fazer algo extraordinário, mas pasme você, ela ainda estava focada no romance e o leitor foi obrigado a ler (mais uma vez) uma cena clichê onde Arin e Kestrel protagonizam um verdadeiro vlog culinário que poderia ser intitulado "Cooking With Arin - Sweets Recipes".
 Fica óbvio para o leitor, que a autora tinha uma ideia inicial que seria esse amor proibido entre povos distintos, porém em alguns momentos da narrativa nota-se que nem a pobre mulher sabia mais o que inventar para criar fluidez e dinâmica na obra. Isso fez com que os personagens tomassem ações inexplicadas que geraram mais cenas estereotipadas.
 Honestamente, não entendo o motivo pelo qual isso é uma trilogia, pois se a autora tivesse sido clara e objetiva ela poderia ter resolvido tudo em um único livro (seja lá o que ela queria desenvolver, porque até agora eu não entendi aonde essa mulher quis chegar nessa história).
 Com uma escrita solta e vaga, falta muito para "A Maldição do Vencedor" ser um bom livro dentro das inúmeras obras que abrangem essa mesma temática. Foi um verdadeiro sofrimento finalizar essa leitura e confesso que só li até o final, pois gastei 30 reais nesse livro e isso não é um bom motivo para aconselhar ou recomendar essa obra à alguém. 
 Se vocês querem uma boa distopia, com personagens bem escritos e enredo coerente leiam "Uma Chama Entre as Cinzas" de Sabaa Tahir (clique no título para ler a resenha). E termino essa resenha com o seguinte ensinamento: propagandas podem ser enganosas.


Classificação: 2 de 5 estrelas.

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4 comentários

  1. Nossa! Adorei sua resenha!
    Eu ainda não li esse livro, não sei se vou ler, confesso que queria ler por causa da propaganda e da capa bonita! :P
    Mas você super me convenceu a não lê-lo! Sua resenha tá maravilhosa mesmo! Você explicou muito bem o porque de não ler esse livro, e é ruim quando um autor se perde, é como se faltasse um pedaço da história no livro!
    :)

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    1. Obrigada Ana, fico muito feliz que vc gostou da resenha .D Eu não gostei mesmo desse livro, mas no mundo literário 90% das pessoas amam ele, então acho que depende bastante da interpretação que cada um faz da obra. Se um dia vc ceder ao impulso de comprar ele pela capa bonita (como eu fiz rs) volte para me contar o que achou .)

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  2. Adorei! Dei 2 estrelas para esse livro e fico me perguntando até hoje de onde tirei a segunda estrela. Kestrel é uma das personagens principais que mais odeio no mundo do YA -- só perde para Mare de "A Rainha Vermelha". Fora que mensagem sobre escravidão e o jeito com que Kestrel trata os escravos é muito difícil de ignorar. Resumindo, concordo em número, gênero e grau que a popularidade do livro, a propaganda forte e a capa bonita enganam e MUITO.

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    1. Até hoje eu nunca consegui terminar "A Rainha Vermelha", agora descobri que deve ser pq não simpatizei muito com a protagonista tbm rs Resolvi não escrever sobre a temática da escravidão e a maneira como ela foi abordada nesse livro, pq senão essa resenha viraria um mini tcc, tamanha revolta que fiquei ahaha
      Obg pela comentário, fico feliz que encontrei mais alguém nesse mundo que tbm não gostou dessa obra .D

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