Resenha: O Último dos Canalhas - Loretta Chase

29.2.16


"O Último Canalha" é a famosa continuação do livro "O Príncipe dos Canalhas" (clique no título da obra para ler a resenha) e eu confesso que a mera ideia de tentar ler novamente qualquer palavra escrita por Loretta Chase apavorava-me.
 Porém como boa brasileira, que não desiste nunca, resolvi ignorar a voz do bom senso dentro da minha cabeça e ler essa sequência. No entanto, antes mesmo de iniciar a leitura dessa obra, abaixei o máximo possível todas as minhas expectativas; praticamente tomei um chá de camomila para ficar bem calminha; respirei fundo e finalmente abri o livro.
 Infelizmente, nem com todo esse relaxamento intensivo, foi possível aguentar algumas ideias e as 100 últimas páginas desse romance, No entanto vamos ao breve resumo do enredo e posteriormente irei expressar todos os gostos e desgostos que senti com relação a narrativa de Loretta Chase.
 Seguindo a temática de libertinos incorrigíveis a autora apresenta agora a história de Vere Mallory. Um canalha de 34 anos que simplesmente não deseja fazer nada da vida a não ser dormir, beber e ocasionalmente dormir com alguma mulher. Como todo bon vivant, nosso protagonista evita todas as damas virtuosas, já que o trabalho (e a dor de cabeça) de deitar-se com uma virgem é enorme demais (e para não fugir do clichê ele também tem aversão a ideia de casar-se).
 Eis que todas suas convicções vão por água abaixo quando encontra a jornalista Lydia Grenville numa situação inusitada que acaba ferindo o orgulho e a reputação de macho man do nosso duque de Ainswood (sim, além de tudo isso ele ainda possui o título de duque).
 Óbvio que após toda a humilhação do encontro, Vere teve que vingar-se da mocinha. Seu plano maligno consistia em seduzir a moça, destruir sua credibilidade perante a sociedade e consequentemente tornar-se o único homem que conseguiu domar o dragão (apelido carinhoso que foi dado à Lydia).
 Basicamente o enredo do livro resume-se a isso, não há grandes acontecimentos ou reviravoltas. E até a página 150 da obra eu estava realmente divertindo-me com as peripécias dos protagonistas (ainda que muitas delas fossem irreais para a época), contudo a autora conseguiu destruir toda minha escassa simpatia após ultrapassar a metade do livro.
 Sinto em informar à vocês que a partir do parágrafo seguinte essa resenha conterá vários spoilers e também será levemente negativa. Então agora a leitura desse texto fica por sua conta e risco.
 Inicialmente vamos a parte boa e positiva dessa resenha (notícias boas primeiro). Em comparação com "O Princípe dos Canalhas", Loretta Chase realmente evoluiu em sua escrita e elaboração dos personagens e romance.
 Vere é o típico libertino que têm todos os defeitos possíveis, porém a autora humaniza o personagem ao mostrar seu relacionamento com Robin (o sexto duque de Ainswood) e como o rapaz sofreu ao ver o pequeno garoto morrer.
 Mallory também não hesita em deixar seu coração aberto e nem de apaixonar-se por Lydia. Na realidade de "canalha" nosso mocinho não tinha nada, já que ele só sabia falar (sad but true).
 Porém foi graças a esse falatório todo que a autora conseguiu desenvolver diálogos inteligentes e carregados de sarcamos entre Lydia e Vere. O que salvou o livro foi a comicidade da interação entre os protagonistas, pois mesmo depois de casados um continuou provocando o outro e soltando comentários indesejados sempre que possível.
 Além disso, a heroína da narrativa também faz sua parte e cativa o leitor com sua personalidade forte. Lydia é a mocinha mais girl power já existente nesse gênero. A garota de 28 anos não é boba ou iludida e muito menos depende de homem para sustentar-se. Seu trabalho de jornalista para a revista Argus permite que ela alcance toda liberdade e influência que uma mulher no ano de 1800 poderia ter.
 Admito que gostei de Lydia, o fato dela ser uma mulher mais madura talvez tenha auxiliado no quesito autoestima que tanto vem me incomodando em alguns romances de época (visto que a moça era bem mais resolvida), porém verdade seja dita a Srta. Grenville é bem irreal para a época (e começa assim os aspectos negativos).
 Doeu na alma (sintam o drama) ler algumas coisas feitas por Lydia. A moça comportava-se muito como homem e esse fato desnecessário acabou tirando toda a veracidade e ambientação histórica do romance.
 Logo no começo é difícil acreditar em todo o seu prestígio perante a sociedade de época e a autora piora as coisas quando faz a moça beber e fumar charuto em um bar numa reunião de trabalho da revista (século XXI encontra século XIX). Não bastasse isso, a moça ainda sai distribuindo soco em todo mundo (em plena via pública), além de discutir seus desejos sexuais bebendo um conhaque com uma prostituta amiga.
 Acrescente também na lista a resposta mais masculina de todos os tempos ao pedido de casamento feito por Vere.

"- Obrigada - respondeu em seu tom mais frio e decidido -, mas casamento não é para mim.
Ele se afastou da porta e se postou diante dela, do lado oposto  da mesa.
- Não diga! Você tem algum princípio elevado contra o casamento.
- Na verdade, tenho (...) - Eu gostaria de saber por que sou a única mulher que precisa se casar com você para obter o que você paga para dar a outras. Milhares de outras"

 Adoro ler mocinhas feministas que lutam pelos direitos das mulheres e não acreditam no ideal de que precisam se casar com alguém para serem felizes ou completas, porém na minha opinião a autora extrapolou um pouco ao criar tal personagem (Lydia era praticamente um Robin Hood de saia) o que prejudicou toda a caracterização da obra. Talvez se esse romance fosse ambientado nos dias atuais, tal problema nem existiria e os leitores conseguiriam aproveitar melhor a leitura.
 Problemas à parte, eis o que afundou de vez a obra: aquelas 100 páginas finais de pura enrolação familiar e investigação de desaparecimento das tuteladas de Vere.
 Desculpe-me pela grosseria, mas sinceramente não poderia estar ligando menos em descobrir se Lydia era parente de Dain ou se seu pai biológico foi Grenville ou outro homem qualquer. Não tenho paciência para esse drama de novela mexicana em que cada hora a protagonista descobre que é filha de alguém diferente ou que fulano é seu primo perdido. É romance de época e eu quero muito passar o final do livro, lendo romance e não investigar a árvore genealógica dos personagens.
 Outro momento em que vou ser extremamente insensível é com as personagens Emily e Elizabeth (as famosas tuteladas). Não tenho nada contra as moças e também não tenho nada a favor, ou seja, na minha experiência de leitura elas foram completamente desnecessárias à essa obra. Por que então fui obrigada a ler umas 30 páginas de enrolação e investigação para encontrar as garotas desaparecidas? (era o que eu me perguntava o tempo todo). Elas não faziam parte da trama principal e o vínculo criado entre elas e o leitor (pelo menos no meu caso) foi tão inexistente que não consegui me preocupar com elas ou seu destino (é eu sei, estou meio bruxa má nessa resenha).
 O dilema da prostituta Coralie e sua rixa com Lydia foi o único conflito mais suportável, já que a cena em que Vere e Grenville resolvem entrar na casa da mulher para pegar as joias roubadas da cortesã foi a mais cômica do livro (tirando aquela em que o duque de Ainswood ficou pendurado na carruagem de Lydia só para seguir a moça). 
 Em resumo, se a obra tivesse acabado na página 150 eu teria classificado esse livro com 4 estrelas, já que ele havia conseguido me fazer rir e distrair um pouco. Porém, a quase mudança de gênero no final da narrativa me fez classificar "O Último dos Canalhas" com 3 estrelas.
 Com uma escrita mediana e muitos problemas de execução temática, admito que estou hesitante sobre continuar com a leitura dessa série. Talvez, por ser cabeça dura, opte por ler em ebook o próximo livro de Loretta Chase, pelo menos desse modo ocupo menos espaço na minha estante.


Classificação: 3 de 5 estrelas.

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