Resenha: Ligações - Rainbow Rowell

30.10.15


"Tem um telefone mágico no meu quarto de infância. Posso usá-lo para ligar pro meu marido no passado. (Meu marido que ainda não é meu marido. Meu marido que talvez não devesse virar meu marido.)
Tem um telefone mágico no meu quarto de infância. Eu o desliguei hoje de manhã e escondi no armário.
Vai ver todos os telefones da casa são mágicos.
Ou talvez eu seja a mágica. Mágica temporária. (Ah! Trocadilho sobre viagem no tempo!)
Isso conta como viagem no tempo? Se é só a minha voz que está viajando?
Tem um telefone mágico escondido no meu armário. E acho que está conectado ao passado. E acho que tenho que consertar alguma coisa. Acho que tenho que corrigir alguma coisa."

 "Ligações" de Rainbow Rowell foi lançado originalmente ano passado e já recebeu o prêmio de "Melhor Livro de Ficção" de 2014 pelo Goodreads. Como fã declarada da autora não pude deixar de conferir essa obra.
 Diferente de seus outros livros, "Ligações" aborda temas mais adultos ao narrar a história do casal Geogie e Neal. Logo no início da trama somos apresentados a Georgie, uma roteirista de programas de comédia que trabalha com seu melhor amigo Seth escrevendo roteiros para a sitcom Jeff'd Up enquanto seu marido Neal fica em casa cuidado de suas duas filhas Alice e Noomi.
 Casados a quatorze anos, Georgie e Neal vinham passando por algumas crises e problemas no relacionamento, portanto quando Gerogie conta ao marido que não poderá viajar com ele e as crianças para Omaha na semana de natal todas as dificuldades do matrimônio ressurgem para questionar o casal.
 Georgie recusou a viagem em família, pois finalmente a emissora para a qual trabalhava ofereceu-lhe a oportunidade de criar sua própria série de comédia. Portando, devido à prazos e datas curtas, ela deveria passar toda a semana do natal trabalhando com Seth na criação dos episódios, atrapalhando assim seus planos com a família.
 Ao contar para o marido sua escolha, Neal resolve viajar sozinho com as meninas deixando Georgie paranoica sobre se havia estragado irremediavelmente seu casamento com essa decisão.
 Após todo esse conflito inicial, começam as dificuldades e desencontros de comunicação entre o casal. Georgie nunca conseguia conversar com Neal pelo celular (que estava com problemas de bateria) fazendo o marido tornar-se praticamente inalcançável, até o dia em que vai à casa de sua mãe e resolve utilizar seu antigo telefone fixo amarelo.
 Ao ouvir a voz de Neal pelo antigo aparelho que eles usavam para se comunicar no início do relacionamento, Georgie fica aliviada ao perceber que o marido não tinha terminado o casamento e ainda a amava, porém após alguns minutos de conversa nossa protagonista descobre estar falando com o Neal de 1998 e não o seu atual marido, desencadeando e misturando problemas do passado e do presente.
 Essas conversar com o Neal de vinte e poucos anos, traz à tona uma recapitulação de todo o romance do casal. Georgie relembra durante mais da metade do livro como eles se conheceram na faculdade, quais foram suas primeiras palavras, beijos, planos e brigas ao estilo típico das comédias românticas.
 Confesso que não estava esperando ler um romance adolescente, ao ler a sinopse acreditei que a autora gastaria suas páginas apenas retratando problemas atuais do relacionamento, porém mais da metade do livro passa-se nos corredores da faculdade e da revista Spoon onde Georgie conheceu Neal e Seth.
 Tive problemas com essas partes nostálgicas do romance, entendo que elas são necessárias para solucionar os problemas existentes em 2013 (data da obra), porém ao ler essa perspectiva de passado versus presente fiquei com a terrível sensação de que Georgie foi um personagem sem evolução.
 Nossa protagonista tem 37 anos e ao ler sua versão de 23 anos é possível notar como seus pensamentos e ações continuam os mesmos. Senti que a vida mudou, o tempo passou, coisas aconteceram à Georgie, porém ela recusava essas alterações. Nas conversas ao telefone com o Neal do passado, víamos a mulher tentar resolver problemas ocorridos há mais de dezessete anos, sendo que atualmente outras questões mais importantes precisavam de atenção.
 Apesar desse livro tratar das dificuldades do casamento, Rowell cria um leve triângulo amoroso com Seth. Seu amigo de longa data é literalmente "a pedra no meio do caminho" entre Georgie e Neal. Durante toda a leitura fiquei na esperança de ter um desfecho com relação a esse "trio", porém a autora nos oferece uma vaga solução comodista no final da narrativa, deixando-me um pouco incomodada com a conclusão desse romance.
 Para salvar a narrativa, Rowell nos oferece Neal, o único personagem maduro do enredo. O marido de Georgie realmente transformou-se em um pai e esposo, aceitando a vida e suas mudanças. Realmente não sei o que seria de Alice e Noomi sem Neal, já que Georgie neglicenciava problemas básicos das meninas. A ausência da mãe era tão grande que a própria protagonista sabia que as garotas e o pai conseguiriam viver sem ela, caso fosse necessário.
 Acredito que o maior problema desse livro, tirando a ficção que também não foi bem executada, era a confusão mental da protagonista feminina. É impossível dar uma conclusão à narrativa quando a personagem principal não tem ideia do que fazer da vida e esse fato fez a obra, que tinha elementos suficientes para ser ótima, tornar-se mediana e um pouco sem sentido. 
 Ao finalizar a leitura percebe-se que o leitor deu voltas e voltas durante a narrativa e terminou sem sair do lugar. Talvez essa tenha sido a intenção da autora, de mostrar ao leitor que a vida é cheia de incertezas e que mesmo adultos ainda teremos dúvidas e questionamentos sobre o que fazer ou qual decisão tomar perante as escolhas que a vida nos apresenta. Essa foi a "moral da história" que eu criei para dar meu próprio sentido a obra, talvez você interprete algo completamente diferente e isso é um dos pontos positivos da escrita de Rainbow Rowell: a multiplicidade de significados de suas histórias.
 Porém devo dizer que ficção não foi o forte da autora. Tantas falhas ocorreram dentro desse livro, como por exemplo: Neal não conhece Heather, irmã de Georgie, pois em 1998 ela não era nem viva e eis que num momento de conversa pelo telefone mágico ele cita a irmã à Georgie, cometendo um leve deslize no enredo. Penso que se não houvesse esse elemento "sobrenatural" na narrativa, a leitura teria ficado melhor e mais objetiva.
 Apesar das críticas, devo dizer que "Ligações" é um bom livro, não foi o melhor de Rainbow Rowell, porém ele cumpre o objetivo de ser uma leitura rápida e de temática leve. A autora mantêm seu estilo único e levemente sarcástico, tornando cômica várias passagens do livro, principalmente nos trechos relacionados à família de Georgie.

"- Você tem carregador de iPhone?
Georgie largou as chaves e o celular no balcão da cozinha. Não andava mais de bolsas; levava a carteira de motorista e o cartão de crédito no carro, enfiados no porta-luvas.
- Eu teria se você me desse um iPhone.
Heather estava curvada sobre o balcão, comendo macarrão com atum de um pote de vidro.
- Pensei que você já tinha jantado. - disse Georgie.
- Não fale assim comigo. Vai me fazer ter um distúrbio alimentar.
Georgie revirou os olhos.
- Ninguém na nossa família tem distúrbio alimentar. Pare de comer meu jantar."

 Se você nunca leu nenhuma obra da autora, leia Fangirl ou Eleanor e Park primeiro, são romances mais juvenis que apresentam personagens e temáticas mais verossimilhantes. Guarde "Ligações" para aqueles momentos de ressaca literária onde só um livro despretensioso e ágil como este irá te ajudar.


Classificação: 3 de 5 estrelas.

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1 comentários

  1. Gostei muito da sua resenha, também já falei dele lá no blog, mas meu preferido ainda continua sendo Anexos. ♥
    Beijo

    www.tecontopoesia.com

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